segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Convite para Amadora



Olá
Venho convidar-te para a apresentação do meu livro CARTAS DE AMIGO E MALVIVER, dia 19 dez. às 18h na Biblioteca Municipal da Amadora, Avª Conde Castro Guimarães, 6 h
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Gostaria de contar contigo e com outros amigos que queiras convidar. Até dia 19 com um abraço
Manuel Rodas


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Olhar

Fico a olhar para ti
à espera
que te decidas
e algo maravilhoso aconteça

Sei lä
os israelitas pedirem desculpas
aos palestinianos
e vice versa

Talvez
Trumpp se fosse embora mesmo sem pedir desculpa
a chuva voltasse
os leões fossem erbívoros
e os corruptos
nos devolvessem a confiança
que alimenta a esperança!
... e tu rires com conchas na mão

Talvez eu apodreça
antes
que isso aconteça!

MRodas

Nem sei o k dizer

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Histórias de livros





Histórias desde ontem até hoje

Manuel Preto Rodas, o Marujo, é já pai de dois filhos da primeira esposa e após o falecimento desta, casa com Ana de Sousa, com a qual tem dois filhos, José e António. O primeiro filho deste segundo casamento, José de Sousa Rodas nasce a 18 de abril de 1918.
Dez dias depois levanta-se cedo e com mais três vizinhos, deixam o lugar da Várzea, dizem um adeus até já, ao rio de Castro Laboreiro, atravessam os contrafortes da Serra de Soajo e após quatro horas de viagem e uma pausa para uma bucha, chegam a Cabana Maior onde depositam os seus votos nas urnas respetivas, elegendo deste modo os 155 Deputados  para a Câmara dos deputados e  49 Senadores para o Senado. Dobram o terceiro boletim de voto e participam na única votação direta durante a primeira República, para um Presidente da República Portuguesa.
Durante as oito horas de viagem a pé, quatro na ida e outras quatro no regresso, têm tempo para falar de tudo que os preocupa e os anima, numa terra sem estrada, sem eletricidade, sem médico, dependentes da resistência de cada um e da solidariedade de todos.
Quando chegam a suas casas, já noite, trazem na cabeça a confirmação dos desejos duma vida melhor e a certeza que o poder emana do povo e não do Rei, e uma forte convicção na alma: é preciso que o povo queira assumir esse poder e participe na construção dum mundo novo. Como? Através das letras e da instrução!
Manuel Preto Rodas organiza, ao fim do dia e aos domingos, na sua varanda virada para o caminho público, sessões de aprender a ler e a escrever, para quem o desejar.
Na mesma data, 1918, Dr. Bernardino Machado, Presidente da Republica Portuguesa inaugura em Benfica, Lisboa, a Escola Normal Primária de Lisboa.
Após algum tempo, Manuel Preto Rodas reconhece para si próprio que a tarefa é demasiada e o resultado é pouco, pois os alunos ficam-se pelo nome próprio e pouco mais. Constatada a indiferença do poder municipal e do Estado, perante os sucessivos apelos para a construção duma escola primária, fala com os vizinhos e decidem eles próprios construir a escola, na esperança que o Estado haveria de lá colocar uma professora. Aos domingos, após o almoço é vê-los a abrir os caboucos, cortar a pedra emparelhá-la e erguer uma casa igual às suas, uma porta e duas janelas. A alegria e a certeza do caminho a percorrer suaviza o esforço e atenua o cansaço. O Estado após muita insistência acaba por colocar uma regente escolar.
Trinta anos depois, o filho, José de Sousa Rodas é o correspondente do jornal regional de Arcos de Valdevez, A Vanguarda, desde 1948 a 1972. Através das suas crónicas quinzenais, informa, divulga e esclarece os assinantes, emigrantes espalhados por todas as regiões do mundo, contribuindo para a sua ligação ao torrão natal, à ascentral cultura serrana. Continua a querer um mundo melhor e um Soajo grande![1] Este jornal é em muitas casas o único material impresso. Da compilação dessas crónicas, o neto de Manuel Preto Rodas, Manuel Rodas fez a sua edição e publicação (2014) com o nome Por Soajo, (Ed.Apenas) por ser dessa forma que começavam as suas crónicas.
 80 anos depois das eleições republicanas de abril de 1918, do nascimento do seu filho, José, e das primeiras lições de ler e escrever na sua varanda, o mesmo neto de Manuel Preto Rodas, é Professor na Escola Superior de Educação de Lisboa, no mesmo edifício inaugurado por Bernardim Machado, em Benfica, em 1918. Continua a querer um mundo melhor, mais fraterno e solidário... e deseja contribuir para a preservação da identidade cultural soajeira.
 97 anos depois, 2015, pela mão do mesmo neto e em edição de autor, é publicado o livro Manual de Ramil, terra e saudade (ed. autor)!
99 anos depois, (2017) o mesmo autor publica Cartas de amigo e malviver, na editora Alfarroba.

Manuel Rodas




[1] Em 1996, Manuel Rodas, então Professor numa escola Brandoa,
Amadora, após uma apresentação aos alunos dum autor de Banda desenhada, José Ruy, convence este a fazer um livro sobre o Juiz de Soajo. A publicação foi feita pela editorial Notícias e com apoio da Junta de Freguesia de Soajo.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Um caminho e uma promessa



Em cada dia há um caminho e uma promessa
marcas deixadas no caminho
como migalhas aos pássaros 
ou guias dum labirinto sem Minotauro.
Desde o princípio e sempre
 prometias afastar-te, a sorrir
e eu empurrava-te com um mão para que fosses 
e com a outra puxava-te para mim
porque cada dia era uma promessa e um caminho.

Sei que um dia voltarás

porque nunca partiste.
Sei que sempre amarás
pois foi amor o que sempre viste.

Sei

MRodas





quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Todas as palavras



Tudo o que tenho dito
e escrito
todos os sorrisos e gritos
canções, versos e poemas
tudo foi gasto e perdido
e nada resta em ti
do que foi a mais bela história de amor

Quem varreu da tua casa
as mais belas flores silvestres
os risos de crianças nuas
as águas frescas do início da vida
e a luz de todas as madrugadas?

Não acredito que tenhas sido tu

Talvez as sombras negras
dum passado morto de raiva e dor

Talvez os diabos obscuros
que negros de vingança
ao amor livre se opuseram
e por isso derrotados
vêm agora armados
de trevas e  raiva
devolvendo à morte
o que perderam em vida!

Que morram para sempre
com ramos de raiva esquecida

Que o amor vença 
e perdurem para sempre
as mais belas histórias de amor!

MRodas

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Flor de carqueja

Carqueja de caules alados
primeira vontade de voar
flores erguidas ao céu
ensinando-me a cantar!

Em nós a mesma seiva da serra
o mesmo cantar liberdade
Tu celebrando o verde e o sol
Eu a distancia, a serra e a saudade!

MRodas

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Caravana XVI


Caravana XVI

Na caravana cada adulto vai  de mão  dada com a criança que foi.
Se tenta fazer algo usado e gasto logo a criança o impede.

Mais lá atrás
vêm todos aqueles que cortaram as mãos para se sentirem livres!

Os que mataram as crianças são adultos perigosos e vão espalhados, incógnitos!

Deste modo a ternura, a maldade e a liberdade  caminham juntas porque se ignoram mutuamente.


Oeiras, janeiro 2017

O mar preso

Prenderam o mar
a uma ideia de mar
para que não aprendessemos
nem soubessemos nadar

A ideia de mar
contem ideias de agua e sal
marés e luas
sonhos de pedra e cal

Contudo o mar
é uma pátria
com língua para falar
povo esclarecido
concreto e defenido

O mar tem alma
tem corpo e pensamento
tem  existēncia e propósito
vive intensamente
para unir a ideia que temos

de conteúdo e continente!

MRodas

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Piratas

Piratas deu lá deu
Piratas como tu ou eu
Fomos daqui ao Industão
Sem por os pés no chão!
Calcorreamos mundo
A remar na areia fina
De cima ao fundo
Daqui até à China!

Mais piratas que nós
Ė quem rouba o pão
A todos os que trabalham
Sem amealharem um tostão.
Mais piratas ainda
Sao os que não têm ideia
Como se pode ir e vir
Daqui ao norte da Coreia.

Piratas, piratas como um tição
Navegam nas àguas da corrupção
Mentem, roubam e não dão
O que nos pertence por razão!

MR

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Amigos em rede

Saio à rua
e espero que alguém passe por perto. 
Escolho os que me parecem ir para o mesmo local que eu,
nenhum local definido.
Ponho-me na  sua retaguarda e
durante alguns passos deixo-me ir no seu ritmo.
Quando a minha presença não é incómoda,
aproximo-me  e explico-lhes
o que comi, como me sinto,
o que fiz ontem, o que vou fazer mais tarde,
o que vou comer esta noite e mais coisas.
Entrego-lhes fotos da minha mulher,
da minha filha,
do meu cão,
minhas no jardim, na piscina,
as férias
e fotos do que fizemos no fim de semana.
Outras vezes caminho atrás das pessoas,
a curta distância,
ouço as suas conversas
e depois aproximo-me
digo-lhes que “gosto” do que ouvi,
peço-lhes que a partir de agora sejamos amigos
e também faço algum comentário sobre o que ouvi.
Mais tarde, partilho tudo quando falo com outras pessoas
Fico a ver quantas pessoas gostam do que eu digo. Muitas!
Para além disso,  já tenho várias pessoas que me seguem…
o vizinho e o carteiro
o inspetor das finanças e do seguro
o merceeiro e o guarda noturno
dois polícias e um psiquiatra!


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Num domingo a tarde



Domingo à tarde



Domingo à tarde
Abraçado a um azul vermelho por dentro
E amarelo por fora
Sentei-me numa esplanada
A ver quem passava.

E passou muita gente
Animada e desanimada
Criança e cão
Boneca e boneco
novo e velho
Sorridente e triste
Devagar e depressa
Com um não pela mão!

Passou um cão de trotinete
E um casal a empurrar carrinho de bebé
Tão felizes e sorridentes
Ainda com a mão na barriga.

Passou uma bicicleta com uma garota
E outra ao lado
A rir do sol que fazia
E do mar que ondulava
Nas vidas que são
E nas esperanças que serão, ou não.

Passou quem quiz
Ficou em casa quem não saiu
Os outros foram ao futebol
Apanhar sol nas pernas e ar nas convicções.

Depois de todos passarem
Olhei as fotografias e pus-me a pensar
nas pessoas que tinha capturado.




Agora são minhas
Estas vidas passeantes
E tardiamente...belas
Estão aqui guardadas
Vou para casa observá-las
Fazer uma montagem
E devolvê-las ao mar .


Vou guardar
O ar quente daquela gente a passar
Aquele riso de criança
Apontar para o mar.

Num domingo à tarde
Abraçado a ti
azul vermelho por dentro
E azul amarelo por fora
Na praia de Carcavelos.



Manuel Rodas

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Técnica

Moinho de vento II






Eleutério, acabada a obra na Coroa, Adrão, almoçou, despediu-se do guarda, que entretanto tinha sido nomeado pelos serviços florestais, disse adeus aos carpinteiros que no largo construiam as janelas, portas e mobília para  a casa e outros trabalhadores presos ao amanho das obras do quintal. 
Arrumou os poucos trastes que tinha – a mulher e os filhos já tinham levado o resto para Soajo – e meteu pés ao caminho, em direção à Cascalheira.
Tanto do lado norte, onde ficava a sua aldeia, como deste lado, a serra era-lhe familiar, as pedras no caminho, as giestas e tojos, urzes e carrascos, o cheiro das flores aquecidas pelo intenso calor, o piar dalgum passaroco e o estremecer dum arbusto, perante a fuga dalgum coelho ou perdiz. 
Quem anda muito tempo sózinho pela serra e a isso não está habituado, vai pela mão do pensamento que o arrasta para locais reconditos da imaginação e recordações mais íntimas do ser. É uma forma de o caminhante solitário se esquivar à solidão da serra e ao esforço do caminho. Essa visita às áreas mais obscuras do pensamento, para além de fazer o tempo passar, sem dele se dar conta, favorece a reflexão e o auto-conhecimento. 
Para os mais imaginativos, pode descambar em paisagens tão intimimanete coloridas e impossíveis que só um reparo da razão o pode trazer de volta à realidade deste mundo adverso e desta serra carregada de urzes e tojos que se agarram às perneiras das calças trespassando-as de tempo a tempo. São os tojos que trespassam as calças e os pensamentos, a alma. 
Eleutério tinha-se metido por estes últimos caminhos. Os filhos crescidos, a mulher com terras para amanhar e dias para trabalhar para fora, a subsistência garantida – salvo alguma doença má e algum vizinho ruim – que sentido fazia a vida dele longe da sua família? O que o fazia andar perdido por estas serras, as costas curvas e as mãos calejadas? A maior parte do tempo sózinho, a falar com as pedras? Porque fazer casas para os outros e não ter uma casa própria, condigna e espaçosa? A casa onde viviam, quer dizer, onde vivia a mulher e os filhos era pequena e sombria, cozinha e uma divisão para duas camas, tinha sido dos pais da esposa. E lá se criaram todos desde o tempo dos bisavós. Porque não fazia um intervalo nos seus trabalhos e ia para junto da família e melhorava a sua própria casa?  O que tinha amealhado garantia-lhe uns anos de descanso.
Porque tinha saído de Riba de Mouro? Porque viera assentar casa e pé posto em Soajo?
É verdade que a mulher era linda e tinha um peito farto, umas ancas largas e uns olhos como a lua cheia em noite de S. João. Aquilo foi um fogo que os ateou e teima em arder, ainda hoje. 
A minha Teresa...
Os soajeiros tinham-no acolhido bem. Segundo diziam, parece que acolhiam melhor os forasteiros que os da terra. Mas isso eram coisas lá deles. Havia quem explicasse que era um costume que vinha dos antigos e se enraizara nos hábitos de todos. 
Já tinha passado pela Chã da Porca, Châ dos Pinheiros, Portela do Galo para os da Várzea e Poulo para os de Paradela.  Caso curioso, como o mesmo local pode ter dois nomes diferentes, mas  prestar-se a confusões. 
Diz um, Vou à Portela do Galo. 
Diz outro, Não vou contigo, que tenho de ir ao Poulo. 
Quando lá se encontrarem ainda podia haver barulho e chamarem-se nomes de zangados, porque um acusava o outro de mentiroso. 
Mas eu disse a verdade, disse que vinha ao Poulo. 
Mas não disseste que vinhas à Portela do Galo? 
E não vim, eu vim ao Poulo. 
Estão a ver a confusão? - pensava ele, a pedir ajuda a um sorriso irónico. A vida tem tantas destas confusões...
Olhou em redor e a vista já cansada de ver tanto verde, em Portugal e na Espanha, foi desviada pela sua preocupação profissional, pedras. Um monte de pedras grandes e pequenas e de bom corte – pensou para si a sorrir. Aqui é que se podia fazer um castelo. 

Antes de começar a descer para os Garfos sentiu um ruído e de imediato um leve eriçar na espinha. Ainda lhe faltava  um bom bocado até à Mina Nova.
 Não havia notícia de algum lobo ter atacado um homem. Mas esse receio tinha-se alojado no mais fundo da alma serrana e havia sempre um estremecimento quando a hipótese surgia com alguma probabilidade de acontecer. Não que fosse fraco de braços. Rijos eram eles e com eles tinha partido tanta pedra que se sobrepusessem, poderia ombrear com as escadas da senhora da Peneda ou fazer sombra ao Outeiro Maior. Mas um lobo não é apenas um lobo. Um lobo é também aquilo que eu penso dele. E ouvi tantas histórias de lobos... e nenhum era bom. Eles atacavam, eles comiam, eles vinham de noite, eles eram os lobisomens. Sorriu. Bem isso eram histórias antigas que a modernidade não confirmava.
Mas um lobo ou vive sózinho ou traz outros atrás. Traz fome e quem sabe, lobetes na toca, para alimentar. 
Tal como ele.

Chegado à vista da Mina Nova, já mais tranquilo, deixou cair os pertences, soprou uma pedra centeia a meia altura e sentou-se,  desapertou a bota do vinho, bebeu um golo longo, para sossegar o que durante o caminho tanto o tinha desassossegado. 
Voltou a suspender os pertences ao ombro, levantou-se e passados poucos minutos  nem teve tempo de suspirar, quando a vista se alegrou,  surpreendendo-o,


Tinha chegado a Paradela.